O Dilema da Água e os Agrotóxicos (Por Carlito Dutra)

Instituto Cisalpina


 
1 em cada 4 municípios pesquisados apresentou um Coquetel com 27 agrotóxicos circulando livremente na água potável que é oferecida (e vendida) aos cidadãos. 1 em cada 4 municípios pesquisados apresentou um Coquetel com 27 agrotóxicos circulando livremente na água potável que é oferecida (e vendida) aos cidadãos.

A intenção aqui é aturdir, para que a consciência chegue a níveis insustentáveis, tal qual o rumor da morte que nos rodeia diuturnamente.

O ponto de partida é uma notícia que causa espanto nas autoridades, terror na indústria química e medo na população da cidade. Sim Brasilândia, Três Lagoas e demais cidades da região estão entre as 1.300 cidades onde foram identificados 27 tipos de agrotóxicos na rede de abastecimento de água.

O número é alarmante: 1 em cada 4 municípios pesquisados apresentou um Coquetel com 27 agrotóxicos circulando livremente na água potável que é oferecida (e vendida) aos cidadãos.

Mas comecemos pelo começo.

Foi no dia 15 de abril deste ano de 2019 que a notícia ocupou um cantinho da mídia, pois o grande noticiário se nega a reconhecer o tamanho do desastre ecológico e humano que já está em curso.

Neste dia as jornalistas Ana Aranha e Luana Rocha, da Agência Pública Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil anunciavam que entre 2014 e 2017 nada menos que 1.396 municípios apresentaram em suas redes de abastecimento de água todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a pesquisar.

Desses, 16 agrotóxicos são classificados pela ANVISA como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

Entre os locais com contaminação múltipla estão as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta que contou com a participação da organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento em cada cidade.

Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Nesse ritmo, em alguns anos, pode ficar difícil encontrar água sem agrotóxico nas torneiras do país.

Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma compreensível para a população, deixando os brasileiros no escuro sobre os riscos que correm ao beber um copo d’água. Em um esforço conjunto, a Repórter Brasil, a Agência Pública e a organização suíça Public Eye fizeram um mapa interativo com os agrotóxicos encontrados em cada cidade.

O mapa revela ainda quais estão acima do limite de segurança de acordo com a lei do Brasil e pela regulação europeia, onde fica a Public Eye. A entidade oferece aos que desejam clicando AQUI consultar a lista com o nível de contaminação de cada uma das cidades que está sofrendo o impacto dos agrotóxicos.

O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde do Brasil inteiro, uma vez tratar-se de dados alarmantes, [que] representam sério risco para a saúde humana. Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como prováveis cancerígenos pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce.

Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente. A falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

 
Ou seja, 82,2% dos municípios sul mato-grossenses consome água com agrotóxicos. Ou seja, 82,2% dos municípios sul mato-grossenses consome água com agrotóxicos.

Vejamos o retrato de Brasilândia nesta pesquisa.

Brasilândia não está sozinha neste contexto insalubre: 65 municípios do Estado de Mato Grosso do Sul apresentaram o coquetel tóxico dos 27 agrotóxicos na água. Ou seja, 82,2% dos municípios sul mato-grossenses consome água com agrotóxicos.

O quadro geral é preocupante, pois 27 agrotóxicos foram detectados na água de consumo humano que abastece Brasilândia entre os anos de 2014 e 2017. Sendo que destes, 11 agrotóxicos estão associados a doenças crônicas como Câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos.

Entre os agrotóxicos encontrados na água que os brasilandenses consomem estão Alaclor, Atrazina, Carbendazim, Clordano, DDT+DDD+DDE, Diuron, Glifosato, Lindano, Moncozebe, Permitrina, Trifluralina, Clorpirifos, Endossulfan, Endrin, Metamidofós, Metolacloro, Melinato, Parationa Metílica, Rendimentalina, Profenofós, Simazina, Tebuconazol, Terbufós. E ainda Aldicarbe, Aldrin, Carbofurano, e 2.4D+2.4.5T.

Segundo profissionais de saúde dos centros especializados no Brasil, essa mistura entre os diversos tipos de agrotóxicos é o ponto que mais gera preocupação entre os especialistas. O perigo é que a combinação de substâncias multiplique ou até mesmo gere novos efeitos. Essas reações já foram demonstradas em testes.

Mesmo que um agrotóxico não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando mistura com outra substância, explica a química Cassiana Montagner, que pesquisa a contaminação da água no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo. A mistura é uma das nossas principais preocupações com os agrotóxicos na água.

Os aviões continuam sobrevoando os municípios despejando quilos e quilos de produtos químicos. As crianças quando os veem saem correndo das creches e de suas casas para apontar o dedinho e abanar para aquilo que lhes parece ser um presente do céu. Ao lado dos pais e professores, inocentes ou desavidados, aspiram gotículas que ainda volatilizam-se e desprendem-se no ar... E assim segue um dia após o outro.

Enquanto isso a invisibilidade do efeito nocivo é ignorado pelas autoridades que ainda desconhecem ou não querem dar ouvidos para o grito silencioso dos que morrem de câncer e doenças endócrinas nos municípios do Bolsão Sul Mato-grossense.

Ironicamente as políticas públicas não monitoram a interação entre as substâncias porque os estudos que embasam essas políticas não apontam os riscos desse fenômeno. E a desculpa é a de que os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real.

Por outro lado o Ministério da Saúde reconhece que a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública e lista os efeitos nocivos que podem gerar, tais como: puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias.

Porém, quanto a uma posição firme e corajosa do Ministério da Saúde, ele ainda está em débito com a sociedade, sobretudo quando ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei".

Aqui começa outro sério problema. Mas sobre isso, falaremos no próximo artigo.

Por Carlito Dutra

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