A Votorantim e o destino da Reserva Cisalpina


 
Várias espécies de animais que se encontram em riscos de extinção, como o cervo-do-pantanal, o lobo-guará, o jacaré-do-papo-amarelo, o tamanduá-bandeira, e o tamanduá-mirim. Várias espécies de animais que se encontram em riscos de extinção, como o cervo-do-pantanal, o lobo-guará, o jacaré-do-papo-amarelo, o tamanduá-bandeira, e o tamanduá-mirim.

Nem todos conhecem, mas na margem direita do rio Paraná, no Mato Grosso do Sul existe uma área de mata nativa de 22.886 hectares que integra a Reserva Cisalpina e a Reserva Particular do Patrimônio Natural-RPPN Cisalpina ao longo da margem deste rio, desde a sua confluência com o rio Verde, por cerca de 30 km a jusante, até as proximidades do córrego Boa Esperança no município de Brasilândia.

Trata-se de uma unidade de conservação formada por extensa área alagada, verdadeira várzea, um mini-pantanal que, sobretudo na época das chuvas, alimenta um complexo sistema de lagoas, córregos e canais interligados entre si e ao canal do rio Paraná que abriga animais aquáticos e aves como tuiuiús, garças e maçaricos.

Parte deste complexo (6.261,75 hectares) foi transformado oficialmente em RPPN em 2016 e forma um ambiente fluvial que tem como calha principal a margem esquerda do rio Paraná, o que permite observar na paisagem da reserva, antigos canais utilizados pelo paranazão que remonta a um período pretérito de mais de 10 mil anos.

A RPPN Cisalpina possui Plano de Manejo e tem sua situação fundiária totalmente regularizada. Está com todos seus limites cercados e conta, até os dias atuais, com fiscalização ostensiva e presença de técnicos das áreas ambientais e biológicas que dão acompanhamento aos visitantes que a Reserva recebe durante todo o ano.

Desde a sua criação, que ocorreu em 1993, a Reserva Cisalpina tem sido frequentada por centenas de estudantes das redes municipal e estadual de ensino da região, bem como motivo de inspiração científica para dezenas de pesquisas universitárias de graduação e pós-graduação em diversas áreas do saber.

A riqueza do lugar, sem dúvida, é a exuberante diversidade de espécies vegetais, verdadeiro mosaico de floresta estacional decidual aluvial, que permeia os ambientes de savana arbórea (cerradão), savana (cerrado) e campos de várzea que servem de abrigo para centenas de animais silvestres.

Neste sentido a Reserva Cisalpina configura importância capital para o equilíbrio ecológico da região por representar um dos últimos refúgios da fauna regional abrigando várias espécies de animais que se encontram em riscos de extinção, como o cervo-do-pantanal, o lobo-guará, o jacaré-do-papo-amarelo, o tamanduá-bandeira, e o tamanduá-mirim.

Nos últimos 20 anos, quando a ocupação antrópica da margem direita do rio Paraná foi definitivamente coibida e ribeirinhos, oleiros, pescadores, agricultores e os semoventes domésticos que os acompanhavam foram transferidos e relocados para reassentamentos rurais, houve uma expressiva regeneração da mata nativa e repovoamento da fauna regional com a transferência para a Reserva de centenas de espécies silvestres pelo IBAMA, CESP e Polícia Militar Ambiental.

Registre-se que neste período a crescente consciência da comunidade do entorno para a importância da preservação desta área, ao lado da ação vigilante dos técnicos e administradores da Reserva, bem como o inestimável apoio e parceria firmado com instituições e organismos de defesa ambiental, tudo isso foi determinante para o combate e a diminuição dos crimes ambientais praticados pelos moradores locais.

Agora, com a chegada dos novos donos deste importante e delicado ecossistema, a velha pergunta se impõe: Será possível conciliar desenvolvimento e preservação? No caso da Reserva Cisalpina há de se perguntar se será possível a exploração sustentável deste santuário: Será possível praticar no seu interior o turismo cultural e paisagístico? Será possível oferecer à população do entorno e instituições de ensino oportunidade de realizar atividades lúdicas e de pesquisa?

O Instituto Cisalpina de Pesquisa, Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural, criado em 2003 por um grupo de voluntários em Brasilândia/MS advoga a defesa da natureza e a preservação do habitat das espécies nativas que vivem na Reserva Cisalpina. E entende que é através deste contato de estudantes, pesquisadores e turistas com a natureza que o sentimento de preservação aflora conferindo-lhes consciência de que também são guardiões daquela Reserva, fiscalizando e orientando a população para não depredar, denunciando a caça e pesca ilegal, incentivando o voluntariado e fortalecendo grupos de brigada anti-incêndio, entre outras iniciativas.

Em resumo, os interesses econômicos da Votorantim S.A. não conflitam com os interesses da Reserva Cisalpina e os inquilinos que ela abriga: a fauna e a flora. O meio ambiente preservado sempre será o marco de empresas que se projetam no cenário da produção e da sustentabilidade em face de um mercado cada vez mais exigente e consciente dos cuidados que se deve ter com a natureza.

O Instituto Cisalpina tem esperança que os novos acionistas que administrarão a partir de agora os ativos da Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta (ex-Porto Primavera) irão envidar todos os esforços para garantir a sobrevivência da Reserva Cisalpina mantendo-a intacta. Mais que isso, confia no diálogo dos empreendedores com as instituições e organismos ambientais locais e regionais, para que juntos venham a desenvolver projetos que garantam subsistência, vigilância e segurança a este patrimônio ambiental de Brasilândia.

Que esta relíquia da biodiversidade de Brasilândia/MS e corredor ecológico da margem do rio Paraná idealizado por Luigi Cantone ainda nos anos 1950, e que deu origem a atual Reserva Cisalpina, jamais seja deixada no abandono e esquecimento. Hora da comunidade se fazer ouvir e dialogar.

**06/02/2019 - Brasilândia/MS - Por Carlos Alberto dos Santos Dutra.

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